A PROPÓSITO DAS GUERRAS NA UCRÂNIA
Uma tentativa de visão a partir dos factos
Parte 3
por António Gomes Marques
Outras acções fundamentais da governação de Putin
Pretendi dar uma ideia da acção de Putin desde que ascendeu à Presidência da Federação Russa, com um interregno, mais aparente do que real, de 4 anos em que a Presidência foi ocupada pelo seu fiel colaborador Medvedev, o que espero ter conseguido.
Há, no entanto, que falar da recuperação das forças armadas russas e das conquistas no campo económico que permitiram, noutras áreas consideradas fundamentais, consolidar a Rússia como uma das grandes potências mundiais que possa bater-se de igual para igual com os EUA.
Outro problema fundamental era transformar a situação caótica que recebeu de Iéltsin no que a Rússia hoje é e que a narrativa ocidental, com origem nos EUA, procura adulterar e que, curiosamente, é agora o actual Presidente desse grande país, Donald Trump, o primeiro a denunciar, declarando mesmo que a Ucrânia nunca poderá ser membro da OTAN/NATO. As voltas que a vida dá, diz o povo.
A falência das Forças Armadas Russas ficou patente na guerra da Chechénia (1994-1996), com a inerente desconfiança que se criou no povo russo. Tudo funcionava mal, desde o armamento dos três ramos até às condições de vida dos militares, naturalmente com excepção do armamento nuclear. Com o acesso ao poder de Vladimir Putin, no ano 2000, a situação começou a mudar, para o que muito contribuiu o aumento substancial do preço do petróleo e do gás. Sou dos que pensam que a sorte se constrói, mas a coincidência do aumento dos preços da energia e a ascensão ao poder não deixa de poder classificar-se como um factor de sorte de Putin. Pode não gostar que se diga isto, mas ele próprio, julgo, terá consciência desse facto. No entanto, havia outras urgências, como uma dívida para pagar, uma das opções tomadas, e a distribuição de alguns benefícios à população, o qual não terá sido grande, mas qualquer benefício teria como consequência o agradecimento dessa população pelos tempos difíceis que viveu e que eu pude observar na minha primeira visita à Rússia, então ainda União Soviética e, não menos importante, o começar a construir uma reserva que pudesse responder a uma possível descida do preço dessa energia. Assim, apenas na década iniciada em 2010 foi possível ao governo russo investir grandes recursos nas forças armadas para ser possível a sua reforma e a sua modernização, o que explica a sua não acção, além dos indispensáveis protestos, na questão do Kosovo, no seguimento do bombardeamento em 1999 por parte da OTAN/NATO na Sérvia, os quais duraram de 24 de Março a 10 de Junho desse ano, o que transformou a organização que se dizia de defesa numa força de ataque, bombardeamentos que foram executados sem a prévia aprovação da ONU, ou seja, à sua revelia, naturalmente para fugir ao veto da Rússia e da China. Esses bombardeamentos tiveram como consequência a retirada das forças iugoslavas do Kosovo e o estabelecimento neste território de uma força da ONU, a UNMIK.
Agora, olhando para a guerra na Ucrânia, verifica-se que as forças armadas russas estão dotadas do mais moderno armamento, tendo mesmo mísseis que nenhum outro país possui e que não poderão ser interceptados. Ao que se sabe, apenas um destes mísseis foi lançado, provavelmente como aviso, guardando-se a sua utilização para um momento em que o conflito entre numa escalada maior? Ou será que a sua quantidade não é ainda muito grande? No entanto, dizem os entendidos, que a Rússia fabrica tanto ou mais armamento em três meses do que os países da OTAN/NATO em um ano, como já referi.
Esta é uma das áreas onde impera o segredo de Estado, o que é compreensível, mas é sempre possível fazer comparações entre a intervenção na Chechénia, na Síria, na Crimeia e agora na Ucrânia para termos uma ideia da transformação a que foram sujeitas as Forças Armadas Russas, embora não possamos deixar de lamentar que estejamos a comparar acções de guerra, com milhares de mortos e centenas de milhares de feridos. Na Ucrânia, uma guerra que se julgava no início entre dois países verifica-se que se trata de uma guerra entre os países da OTAN/NATO e demais países do chamado mundo ocidental e a Rússia, na qual o povo ucraniano tem sido carne para canhão, como não me canso de o dizer.
Desenvolvimento económico na governação de Putin
As sanções económicas infligidas à Rússia após ter anexado a Crimeia, agravadas depois com a invasão da Ucrânia — Domingos Lopes, no seu livro sobre a guerra Rússia-Ucrânia, editado em Outubro de 2024, falava que o número de sanções já atingira o número de 18.772 (1) —, levaram-me a concluir, perante as evidências, que foi o melhor que poderia ter acontecido. Vou tentar explicar, mas antes convém lembrar que a Rússia, com Putin a ser o primeiro, tinha consciência de que a sua economia necessitava de se modernizar e começou a fazê-lo logo que Putin foi eleito Presidente.
Para Putin, havia que modernizar a economia russa quanto antes, pois estava consciente de que o futuro do seu país não poderia basear-se só nos recursos naturais, que ter de exportar produtos manufacturados era uma exigência e a única com futuro. O lucro imediato que o petróleo e o gás estavam a gerar era fundamental, mas colocava a economia russa dependente da oscilação dos preços e a levar a Rússia para problemas que era urgente não ver repetidos.
Todos os sectores da economia teriam de ser inovadores, para isso nomeando um antigo agente do KGB e que havia sido Ministro da Defesa, Sergei Ivanov, para tomar em mãos este objectivo. A tecnologia russa estava ultrapassada, havia que obter a tecnologia moderna para a construção desse desejado futuro.
Nesse objectivo incluía-se o controlo de sectores estratégicos por parte do Estado, como a construção naval, a indústria aeronáutica, a tecnologia nuclear e a tecnologia da nanotecnologia, sendo este «o grande projecto da era moderna», nas palavras de Sergei Ivanov, percebendo-se tal destaque, reflectido no Orçamento do Estado, quando sabemos que a nanotecnologia, conceito criado por Richard Feynman em 29 de Dezembro de 1959, é uma ciência dedicada ao estudo da manipulação da matéria numa escala atómica e molecular que lida com estruturas entre 1 e 100 nanómetros, sendo o nanómetro «uma unidade de comprimento equivalente à bilionésima parte de um metro» (Dicionário Houaiss da L. Portuguesa), que pode ser utilizada em medicina, electrónica, ciência da computação, física, química, biologia e engenharia dos materiais, visando a construção de estruturas e novos materiais a partir dos átomos e, assim, produzir semicondutores, nanocompósitos, biomateriais e chips, o que mostra bem como o desenvolvimento desta ciência se torna fundamental para o progresso de qualquer país. Não procura controlar de forma precisa e individualmente os átomos, mas elaborar estruturas estáveis com eles, o resultado será uma nova revolução industrial. Essa importância fundamental desta ciência é saber-se que tem consequências não só económicas, mas também sociais, ambientais e, claro, militares. (v. https://pt.wikipedia.org/wiki/Nanotecnologia).
Michael Stuermer refere tudo isto, mas não deixa de fazer uma crítica ao dizer que “Há método neste pensamento megalómano. (…) Enquanto a bem-sucedida indústria alemã de ferramentas industriais — incluindo as empresas que operam no mercado russo — é constituída sobretudo por empresas de médias dimensões, maioritariamente de cunho familiar, o Kremlin continua a preferir a quantidade à qualidade, mesmo no sector acima referido.” (2)
Não estou em condições de contrariar estas palavras daquele Professor, jornalista e político, nem fui à procura de informação que as contrariasse especificamente, a realidade actual da Rússia aí está para mostrar quem tem razão. Mais à frente, vou servir-me das informações que colhi no citado livro de David Teurtrie, Russie Le Retour de la Puissance, muito mais actualizado.
Antes disso, vou falar da Europa. Ao impor sanções, deixou de poder usufruir do custo bem mais baixo do petróleo e do gás que adquiria e que bem contribuiu para a riqueza de alguns países europeus, com particular realce para a Alemanha, cuja economia se mostra agora bem mais débil.
Para além das sanções, só a Europa confiscou bens de empresários russos superiores a 52 mil milhões de euros, assim como congelaram fundos do Estado Russo de muitos milhares de milhões de euros, no que foi acompanhada por idêntica acção de outros países, quase todos do chamado mundo ocidental, o que levou a que outros detentores de bens e fundos depositados nos bancos ocidentais os transferissem para outros paraísos que lhes dão mais garantias de segurança, não só por perderem a confiança na U. E., nos EUA e em outros países, mas também por pensarem que, amanhã, poderiam também vir a ser objecto de sanções semelhantes, o que para o equilíbrio financeiro dos EUA foi um golpe bem duro. Ou seja, o resultado é que as sanções, ao que parece, estão a ser bem mais perniciosas para o mundo ocidental do que para a Rússia. A situação que está a ser vivida pelas economias das grandes potências, EUA, Alemanha, França e Grã-Bretanha — para só falar destas e não ser exaustivo — é calamitosa. Esta verificação já é bem favorável para a Rússia, mas há mais.
Costuma dizer-se que a sorte acompanha os vencedores. A sorte de Putin foi a coincidência de os preços do petróleo e do gás terem iniciado um constante aumento, mantendo-se, apesar da actual baixa, em valores altamente favoráveis à Rússia. Com as receitas provenientes destes produtos energéticos, o governo russo pôde ir acumulando saldos significativos, para além de ter iniciado o pagamento da dívida colossal que herdou e, ainda, beneficiar o nível de vida dos russos. A dívida foi paga, o que significa mais liberdade de acção, iniciando-se a acumulação de reservas para acudir a uma necessidade urgente, para restaurar as forças armadas como já referi, pois Putin estava consciente que a economia da Rússia não podia estar dependente das oscilações dos preços da energia, havia que desenvolver outras áreas altamente deficitárias, nomeadamente a necessidade imperiosa de modernizar a tecnologia e de acabar com a falta de competitividade da sua economia, cujas exportações eram constituídas por matérias- primas e as importações por produtos manufacturados, dando origem à primeira palavra de ordem para todos os sectores da economia: a substituição das importações.
A Gazprom tornou-se proprietária da maior parte das reservas de gás natural da Rússia, “é um Estado dentro do Estado”, no dizer de Michael Stuermer, controlando também os gasodutos da Ásia Central e tem a vindo a adquirir participações em infra-estruturas na Europa, como também foi adquirindo participações nas indústrias da União Europeia e até em clubes de futebol. Tem também participações em companhias de gás natural em outros países, nomeadamente na Argélia.
Hoje, a Gazprom domina a tecnologia GNI (Gás Natural Liquefeito), tendo uma verdadeira frota que navega pelos mares, dominando a navegação no Árctico.
O gás é uma verdadeira arma política, com a Rússia a praticar preços muito mais baixos para os países do chamado «estrangeiro próximo», do que a própria Ucrânia também beneficiou, dado que a Rússia lho vendia a 50 dólares por cada 1000 metros cúbicos.
Com a interferência da CIA e de outros países ocidentais no processo eleitoral na Ucrânia, originando a chamada Revolução Laranja, a Rússia aumentou o preço do gás para 230 USD, o que a Ucrânia não aceitou, levando a Rússia a cortar o seu fornecimento em 1 de Janeiro de 2006.
Em “4 de Janeiro de 2006, Moscovo e Kiev acordaram uma solução de compromisso para os cinco anos seguintes. Esse acordo previa que o gás natural da Ásia Central — vindo do Turquemenistão, do Uzbequistão e do Cazaquistão — seria transportado para a Europa através da rede russa da Gazprom e vendido a 50 USD, mas a empresa misturaria gás natural russo, o qual cobraria a 230 USD.” (3)
O último contrato de fornecimento de gás russo à Ucrânia terminou recentemente e, desde que o gasoduto deixou também de levar gás para a Europa, U. E. incluída, a Ucrânia também deixou de beneficiar de uma grande receita proveniente da concessão do direito de passagem do gás pelo seu território.
Com a perda de tanta receita, causada pelas sanções, a solução para a Rússia passou pela substituição das importações, como já referi, em todas as áreas consideradas fundamentais e até por os governantes russos, com Putin a referi-lo em várias declarações, terem ganho consciência de que a economia do país não poderia assentar unicamente nas matérias-primas, como o petróleo e o gás.
Os produtos agro-alimentares que a Rússia importava foram dos primeiros a serem substituídos, tomando Putin uma decisão radical em 2014: embargou as importações agrícolas provenientes da União Europeia, dos EUA, do Canadá, da Austrália e da Noruega, correndo o risco de criar uma grave falta destes produtos nas casas russas; no entanto, os russos aceitaram bem a medida e consideraram ter sido uma boa resposta às sanções ocidentais, embora a Rússia tivesse compensado em boa parte passando a importá-los da Turquia, do «estrangeiro próximo» e da América Latina e, ao mesmo tempo, conseguiu a auto-suficiência em numerosos produtos, vindo mesmo a tornar-se grande exportador nos cereais no início dos anos 2000.
A desvalorização do rublo trouxe alguns benefícios e o lançamento de dois programas, em 2006 o programa nacional «Desenvolvimento do sector agro-alimentar» e, em 2012, o «Programa de desenvolvimento estatal do sector agrícola 2013-2020», fazendo com que a Rússia, em menos de 10 anos, se tornasse auto-suficiente em produtos alimentares, incluindo a carne e o queijo que dantes tinham uma boa percentagem no custo das importações.
Em 2020, as exportações agro-alimentares russas atingiram os 30 mil milhões de dólares, um novo recorde, superando a exportação de gás, que foi de 26 mil milhões de dólares, pois, para além dos cereais e das oleaginosas, estas exportações agro-alimentares eram compostas pela exportação de carne, com a China, a Turquia e o «estrangeiro próximo» a adquirirem o grosso dessas exportações. Informa David Teurtrie no seu livro de que, entre 2013 e 2020, as exportações agro-alimentares russas foram multiplicadas por três, enquanto as importações foram divididas por dois, para o que muito contribuíram a modernização das ferramentas agrícolas e o uso de fertilizantes, aproveitando as terras com melhores condições climatéricas da região meridional, as terras negras mais férteis, deixando as terras do Centro e do Norte para a pecuária.
Para combater as grandes unidades de produção, que dão preferência às exportações, o governo, nos últimos anos, tem vindo a aumentar os auxílios aos pequenos produtores de modo a conseguir que a população tenha acesso a produtos de igual qualidade.
Em 2018, foi publicada uma lei para desenvolver a agricultura biológica, que dispensa os certificados internacionais, proibindo, em simultâneo, a produção e a importação de organismos geneticamente modificados.
Este êxito trouxe a vontade de tomar medidas para os outros sectores da economia, visando também a substituição das importações, as quais também serviram, para além da entrada de produtos manufacturados de qualidade vindos do Ocidente, nomeadamente da U. E., traziam consigo a tecnologia, que os russos bem aproveitaram:
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construção naval — a Rússia estabeleceu quotas de pesca em troca da construção dos navios nos estaleiros russos (lembre-se que os estaleiros de construção para as embarcações da marinha de guerra na União Soviética estavam situados na Ucrânia e lá ficaram, o que obrigou a um esforço suplementar);
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indústria automóvel — também aqui se visava a substituição de importações, o que levou o Estado russo a assinar acordos com os fabricantes que isentavam de direitos alfandegários as importações de peças sobressalentes em troca de um aumento da localização da produção na Rússia;
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grande distribuição —aquando de um encontro do responsável da cadeia de material de bricolagem da Leroy Marlin com Vladimir Putin, no Kremlin, aquele anunciou que nos seus 110 supermercados na Rússia 67% dos produtos ali vendidos são produzidos na Rússia, comprometendo-se a elevar essa percentagem para 80%, contribuindo também para a exportação desses produtos russos;
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compras dos serviços públicos —foi determinado que estes serviços teriam de privilegiar as empresas russas. Os serviços públicos levantaram dificuldades ao cumprimento de tal decisão, impondo muitas vezes, segundo os empresários russos, exigências de critérios técnicos para, assim, conseguirem evitar a ordem governamental, mas em 2020 as empresas russas já representavam 75% das compras por parte dos serviços públicos;
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sector do turismo — o fecho das fronteiras em 2020 e 2021 evitou a saída massiva para o estrangeiro, levando o governo a lançar, em Abril de 2020, um projecto nacional, «Turismo e hotelaria», para o desenvolvimento do turismo interior e acolhimento de turistas estrangeiros, onde as viagens dos jovens russos eram subsidiadas pelo governo. Construíram-se cerca de 300 hotéis e sanatórios especialmente dirigidos ao turismo familiar. Perante a incapacidade de responder à procura, foram facilitadas as viagens turísticas para a Turquia e para o Egipto;
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custo de vida — a inflação trouxe muitas dificuldades à população russa, sobretudo pelo elevado custo de alguns dos bens essenciais na dieta russa, mas, em contrapartida, a maioria da população no início, 84%, apoiava o embargo dos produtos agro-alimentares estrangeiros; no entanto, em 2021, essa percentagem tinha descido para 57%. As dificuldades criadas pelas sanções acentuaram-se; no entanto, tem havido um consenso patriótico que tem incitado as autoridades russas a continuar com a sua política de substituição das importações;
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política florestal —a exportação de madeira em bruto foi interditada pelo governo, investindo em fábricas transformadoras desta matéria-prima, com múltiplos projectos na Sibéria, onde a mão-de-obra era mais barata, conseguindo obter produtos de madeira manufacturados a preços mais baixos do que no Ocidente, o que trouxe manifestas vantagens para a exportação; no entanto, no Extremo-Oriente russo a vantagem dos empresários era maior ao venderem a madeira em bruto, dado que ali ao lado, na China, a produção transformadora da madeira tinha custos mais baixos e, se a ordem do governo fosse cumprida, os empresários perderiam dinheiro, o que os levou a abandonar a transformação da madeira, o que também demonstra que o considerado czar absoluto Putin não é assim tão absoluto, ou seja, o «tirano» não será assim tão tirano:
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crescimento da economia – com muitas resistências por parte de vários sectores da economia, a política de substituição das importações estava a ter um assinalável êxito. Mesmo com a crise sanitária e da baixa dos preços do petróleo, o PIB russo, em 2020, teve apenas uma baixa de 3%, tendo a Rússia obtido, entre as 15 principais economias, o quarto melhor resultado, depois da China, da Coreia do Sul e da Austrália. Os investimentos na produção de polietileno, de papel e de produtos derivados aumentaram, originando um crescimento da indústria química e da indústria da madeira, assim como da indústria alimentar, aumentando substancialmente as suas exportações em 2020, o que levou a um crescimento líquido do PIB nos anos seguintes, tendo a Rússia obtido desde 2023 um crescimento anual de mais de 2%, ao passo que a U. E. entrou em recessão. Afinal, as sanções, ao que parece, estão a dar piores resultados para os países que as determinam do que para a sancionada Rússia;
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desdolarização e independência financeira —aquando das primeiras sanções após a anexação da Crimeia, em Março de 2014, depois de referendo e mediante a formalização do pedido pelo Parlamento da Crimeia, a Rússia estava profundamente integrada no sistema financeiro e monetário internacional, tendo também contribuído para isso o aumento brutal da inflação, pois isso levou não só a população russa, mas também os empresários a adquirirem dólares, quase fazendo desaparecer o rublo de algumas regiões. O crescimento económico a partir de 2000 levou o rublo a ir recuperando o espaço económico russo, com o Banco Central da Rússia e os fundos soberanos do Estado a adquirirem massivamente títulos do Tesouro americano, para além de utilizar o sistema ocidental SWIFT nas operações interbancárias, sendo esta uma das razões, se não a principal, para a Rússia não intervir, na altura, no Leste da Ucrânia após ter aceitado os Acordos de Minsk. Mas os EUA proibiram as transacções com o banco Rossia, o que levou o Visa e o Mastercard a anular os cartões emitidos por este banco, obrigando as autoridades russas a desenvolver um sistema de pagamentos russo independente, acabando por lançar, em Abril de 2015, um sistema de cartões de débito para todo o território nacional e, ao mesmo tempo, o sistema de cartões de crédito «Mir». O sistema bancário russo resistiu a estas medidas, mas, a partir de 2018, os pagamentos de salários dos funcionários públicos e das prestações sociais passaram a ser feitos através destes cartões Mir, o que levou a que 87% da população, em 2021, possuísse o cartão Mir, cartão este que se transformou no principal meio de pagamento para 42% da população, percentagens que o Visa e o Mastercard nunca tinham atingido. No entanto, este cartão não era válido no estrangeiro, o que levou muitos russos a abrirem conta em um dos países vizinhos, podendo assim voltar a utilizar as plataformas ocidentais quando viajam para o estrangeiro; entretanto, o cartão Mir passou a ser válido em quase todos os países da CEI, na Turquia e no Vietname.
Entretanto, saltando por cima de outras informações importantes referidas por David Teurtrie, o governo russo, perante o agravar das sanções, aumentou significativamente as suas reservas de ouro, continuou a libertar-se do dólar, trocando as suas reservas desta moeda por outras moedas, aumentando particularmente essas reservas em yuan, o que não deixa de reforçar a aproximação russo-chinesa, e avançou para a criação de um sistema de pagamentos criando um «SWIFT russo». Ao mesmo tempo, o rublo sai reforçado dentro da Federação Russa, com os detentores de dólares a trocarem-nos pela moeda do seu país. Para a Rússia, como nos diz o autor que venho a citar, é a “reapropriação da sua soberania financeira e monetária”. E tudo isto em 20 anos!
Reconstrução dos sectores industriais estratégicos
Os lucros trazidos pela exportação das matérias-primas, petróleo e gás em primeiro lugar, vão ser investidos em sectores chave: complexo militar-industrial, aeronáutica, nuclear, exploração espacial e novas tecnologias.
Durante os mandatos de Iéltsin, o complexo militar-industrial (CMI) sofreu grandes cortes de financiamento, o que a União Soviética também quis fazer, mas a guerra fria obrigou-a a desviar grandes fundos para o armamento, com terríveis consequências para a restante economia. Iéltsin fê-lo um pouco às cegas, de forma radical e sem controlo, o que originou que apenas as empresas que iam exportando grande parte do armamento que produziam conseguissem sobreviver, particularmente na área da aeronáutica militar, enquanto outras faliram.
Apesar do aumento do preço do petróleo e do gás, os lucros não davam para tudo, havia que fazer opções. Os responsáveis governamentais optaram por dar prioridade ao pagamento da dívida e ao melhoramento do nível de vida da população. Apesar de tudo, o sector do armamento teve alguns melhoramentos, mas a corrida aos armamentos traria sérios problemas à economia que estava em recuperação. Havia que ter alguma racionalidade e, por isso, apenas a partir de 2010 houve um investimento claro na modernização das forças armadas russas.
As dificuldades foram ultrapassadas? Não, pois para além do financiamento havia toda uma organização a construir de novo. O entendimento sobre o controlo do Estado sobre este sector nunca esteve em dúvida, mas a reorganização foi difícil, mas não me vou deter em pormenores sobre como as dificuldades foram vencidas, dificuldades agravadas com as sanções, as quais não eram exercidas apenas sobre a Rússia, mas também sobre os países que adquirissem produtos russos, em especial armamento, apesar da sua reconhecida qualidade, superior ao que se produzia e produz no mundo ocidental. Houve países, alguns africanos, que anularam as suas encomendas perante a ameaça dos EUA, mas houve outros que não aceitaram tais ameaças, como a China, a Índia, o Vietname, a Birmânia, o Iraque, a África do Norte (Argélia, em primeiro lugar, o Egipto), o Médio-Oriente. Curiosamente, os EUA nunca ousaram aplicar sanções à Índia e continuaram a concorrer com a Rússia na venda de armas ao Iraque e também à Turquia (a Alemanha, decisão de agora, recusa-se a vender aviões de combate à Turquia, que os havia encomendado). A Rússia, que tem na aviação militar o sector mais importante na exportação, continuou a ser o segundo maior exportador de armamento, sendo o primeiro os EUA.
O Instituto Real Britânico para as questões de defesa, no estudo, RUSI, de Maio de 2023, já com a segunda guerra da Ucrânia a decorrer há mais de um ano, afirma: “As forças russas demonstraram que uma grande parte do seu equipamento é eficaz e altamente letal e adequado para uma ampla gama de ameaças” (David Teurtrie, pg. 171)
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o aerospacial russo – sucesso desta área vem já da União Soviética, com especial destaque para a plataforma de lançamento Soyouz e para a estação espacial, mas, com a queda do regime, também esta área sofreu graves insuficiências financeiras, não havendo investimentos em novos produtos. Passados dez anos, o Estado russo decidiu voltar a investir de modo a colocar o país na vanguarda mundial do sector, o que está a conseguir.
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a aeronáutica civil – a Rússia produzia em média 150 aviões comerciais por ano no final da década de 80 do século passado; com o fim da URSS, várias unidades de produção ficaram nas repúblicas que se tornaram independentes, com destaque para a Ucrânia, onde existia uma boa parte do potencial aeronáutico soviético. Consequentemente, dez anos depois não produzia mais do que 10 aviões deste tipo. Assim, havia que reorganizar este tipo de produção, para o que foi criada uma holding, «Companhia Aeronáutica Unificada», agrupando as companhias para a construção de aviões civis e militares; no entanto, a produção a partir de 2000 não superou as 12 unidades por ano, sendo a maioria destinada ao serviço do Estado, sobretudo para o transporte dos responsáveis governamentais.
Tenta-se a cooperação com construtores internacionais, com estes a participarem no capital de empresas russas do sector e vice-versa, diversificando-se essa cooperação, com grande sucesso no fabrico de peças para os A320 da Airbus, mas, entretanto, esta cooperação russo-europeia é posta em questão por haver um accionista russo no coração da indústria de defesa europeia, situação esta que viria a ser agravada com as sanções à Rússia implantadas a partir de 2014.
Entretanto, a cooperação com a Airbus prosseguiu, dispondo esta empresa de um centro de engenharia em Moscovo depois de 2003, onde 200 engenheiros participavam na concepção de novos modelos. Em 2022 a Airbus saiu da parceria e esse centro passou a trabalhar para a aeronáutica civil e militar russa.
Há ainda um outro aspecto favorável à Rússia: a empresa russa VSMPO-Avisma é o primeiro produtor mundial de titânio, onde representa 30% da produção mundial e 40% e 50% das necessidades da Boeing e da Airbus, respectivamente, como é também esta empresa que fornece as peças em titânio à Embraer, à Rolls-Royce, à Safran e a outras, o que levou a que as sanções não se aplicassem a esta empresa. No entanto, as sanções impediram a cooperação com o Ocidente no desenvolvimento da aviação civil russa, o que obrigou o Estado a russificar o fabrico de aviões sem a cooperação ocidental, o que está em desenvolvimento. A solução, com o impedimento até de equipar os seus aviões com motores ocidentais, passa por a Rússia ser capaz de produzir também motores para a aviação civil. Os planos estão elaborados e já há previsões para o número de aviões que será a Rússia capaz de produzir para a aviação civil, tendo sido fixado esse número em 735 aviões em 2030, como também está previsto construir 300 biplanos monomotores a hélice para as ligações regionais para substituir o An-2 em funcionamento há 70 anos. Também foi decidido construir um grande avião de transporte para substituir o Antonov 124 Ruslan, concebido e produzido na União Soviética.
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conquista do espaço – os êxitos da União Soviética na conquista do espaço são bastamente conhecidos pelo público em geral e, tendo em conta as dificuldades de que já dei conta no sector industrial, esta área manteve a sua habitual eficiência e eficácia, muito devido também à cooperação internacional, nomeadamente com os EUA, com grandes vantagens para ambas as partes. Foi graças a esta colaboração com os EUA que, provavelmente, foi possível manter as estações espaciais, assim como não deve ser esquecido o mercado de lançamento de satélites devido à grande fiabilidade dos veículos de lançamento Soyouz, reconhecidos como os melhores, como os mais fiáveis. A cooperação com a Europa permitiu, a partir da Guiana, 25 lançamentos entre 2010 e 2020. As sanções puseram toda esta cooperação em causa, mas a economia russa vive hoje sem essa cooperação. Depois dos EUA, também a Rússia criou o seu sistema de navegação por satélite, o GLONASS, tendo sido o segundo país a fazê-lo, cuja importância para a segurança do país não se torna necessário enaltecer.
No entanto, as dificuldades vividas nos últimos anos são muitas neste sector. Para além da desorganização que o fim da União Soviética provocou, houve ainda o grave problema da corrupção na Roskosmos — que é um problema em vários sectores do Estado Russo —, acrescendo o problema das sanções que, neste caso, fizeram e ainda estão a fazer mossa, o que obrigou o Estado a diversificar as importações de países que não aplicam as sanções, estando programado para este ano o fabrico de satélites. O fabrico dos componentes electrónicos é o sector mais em atraso na Rússia, embora as autoridades governamentais disso tenham consciência e, portanto, procuram superar a situação, não esquecendo que o financiamento do sector por parte do Estado está muito longe do desejado.
No caso da estação espacial, a cooperação russo-americana prossegue, mas o envelhecimento da estação e as tensões que se vivem levaram o governo a admitir já a possibilidade de criar uma nova estação espacial apenas russa.
Agora, há também que contar com a concorrência da China, país que para este sector tem um orçamento bem superior ao da Rússia, nomeadamente no caso dos satélites, embora a Rússia tenha duplicado o lançamento de satélites militares por razões óbvias.
Quanto ao nuclear para fins pacíficos, para além dos problemas vastamente aqui referidos que resultaram da queda da URSS, o desastre de Chernobyl em 25 de Abril de 1986 não deixou de levantar dúvidas quanto à capacidade da Rússia para controlar as centrais nucleares. Não obstante toda esta realidade, a segurança acabou por ser reforçada, obtendo a indústria nuclear russa bons rendimentos ao beneficiar da transformação de material militar físsil, como o urânio enriquecido, que exportou para alimentar as centrais nucleares americanas. Mas, como escreve David Teurtrie, “este período não deixou apenas boas recordações aos russos, que podem ter entendido o activismo ocidental como um desejo de colocar o sector sob supervisão e de se apropriar do know-how soviético nesta área estratégica” (4). Assim, a decisão passou por reforçar a quantidade armazenada, uma questão estratégica, para as necessidades da indústria e das forças armadas russas, o que tem sido uma prioridade para Vladimir Putin desde a sua chegada ao poder.
A indústria nuclear russa foi reagrupada na agência federal Rosatom, uma holding estatal, em 2007, tendo por função não só a extracção do urânio, mas também a construção e exploração de centrais, incluindo o enriquecimento e o fabrico do combustível. Também compete a esta holding a componente militar do nuclear, ou seja, o fabrico de ogivas nucleares e a construção de reactores para submarinos nucleares.
Para administrar a Rosatom, Putin nomeou o antigo primeiro-ministro de Iéltsin, Serguï Kirienko, o qual, ao fim de dez anos, tinha transformado a Rosatom na líder mundial da indústria nuclear e, em 2023, tornou-se o primeiro exportador mundial de centrais nucleares, tendo como clientes países como a China, a Índia, a Turquia, a Hungria e outros. É tal a importância da Rosatom que as sanções não se lhe aplicam, sendo os franceses cooperantes no equipamento das novas centrais construídas na Rússia para as necessidades do país e para a exportação. Propõe projectos «chave-na-mão» e é um dos grandes produtores de urânio no mundo, representando um terço dos serviços de enriquecimento e tem 17% do mercado mundial do combustível. A parte da electricidade consumida na Rússia com origem no nuclear passou de 15% em 2005 para 20% em 2020. Em 2021 “lançou a construção, na Sibéria Ocidental, de um reactor de neutrões rápidos de nova geração com um ciclo de combustível fechado, que deverá melhorar significativamente o rendimento energético do urânio e é, por conseguinte, considerado como uma solução futura para o sector.” (5)
Outra das especialidades da Rosatom é “a construção de mini-centrais eléctricas com base nos reactores utilizados nos quebra-gelos nucleares”, acrescenta David Teurtrie.
Outro grande êxito russo está na transformação da via marítima do Norte russa na mais importante do mundo, a frota de quebra-gelos nucleares que tem sido fundamental para muitas das exportações russas. Quem gere esta frota? A Rosatom, que, para além da continuação em serviço dos quebra-gelos de propulsão tradicional, está em desenvolvimento um projecto que vai desenvolver uma nova geração de navios porta-contentores de classe árctica movidos a gás natural liquefeito.
Pela descrição que acabei de fazer, graças ao livro de David Teurtrie que tenho vindo a citar, podemos fazer uma ideia da complexidade das transformações levadas a cabo nas presidências de Vladimir Putin, iniciadas no ano 2000, embora com um interregno de 4 anos, em que o presidente foi Medvedev, mas com Putin no poder, dado que era ele o primeiro-ministro. Tem vindo a ser uma obra gigantesca.
Outra das grandes recuperações da Rússia tem a ver com as novas tecnologias, sendo a Rússia possuidora das melhores escolas de programação que muito devem ao excelente domínio das matemáticas, do que o Mundo Ocidental tem consciência, como se comprova pelas constantes acusações de ataques informáticos com origem na Rússia, bastando ler a imprensa ocidental. A alta qualidade russa neste sector deu um grande contributo na modernização da economia russa e permitindo à Rússia conservar uma clara autonomia neste domínio estratégico e contribuindo também para a soberania do país e, não menos importante, para exercer influência a nível mundial.
Putin, entre as medidas que tomou para reforçar tanto esta área das novas tecnologias como a área da electrónica estão as leis fiscais, dando a estes sectores grandes benefícios fiscais, o que muito contribuiu para fazer face à concorrência estrangeira.
No domínio das infra-estruturas muito há também para dizer: a Rússia dispõe de um activo muito importante, que é a Transit Europe-Asia (TEA), que é uma rede de cabos que, através do território russo, permite ligar a Europa à Ásia, constituindo assim uma alternativa continental às redes de cabos marítimos detidos por empresas americanas, o que permite uma comunicação mais rápida entre as capitais da Europa e da Ásia, ficando assim a Rússia com uma centralidade tendo em conta a ligação que há com o Japão, a China e o chamado «estrangeiro próximo» (este sem alternativa), sendo esta ligação de uma superioridade incontestável em relação às rotas oceânicas, assim como uma ligação a várias regiões russas, com particular importância a ligação à Sibéria, o que é «ouro sobre azul» para os serviços secretos russos.
A Internet é hoje uma das principais disputas entre Estados e os ataques à Rússia por parte dos países ocidentais afirmando que os problemas de cibercriminalidade e de espionagem têm origem na Rússia, o que, independentemente de ser ou não verdade, dá a ideia de que a Rússia tem, também nesta área, um poder criador de insegurança no Ocidente. O que é inquestionável é ser a Rússia detentora de matérias-primas em abundância como nenhum outro país, que podemos classificar como incomensuráveis, o que, na verdade, sempre teve. No entanto, eu não esqueço o que presenciei no último ou penúltimo ano da Presidência de Mikhail Gorbatchov, tendo visto uma Rússia de tanga, a que já me referi, situação depois agravada pelo Presidente Boris Iéltsin; testemunhei depois uma situação incomparavelmente superior, de franca recuperação, na minha visita em 2015, a que também já aludi, mas não posso deixar de manifestar a minha surpresa com a situação que David Teurtrie refere no seu livro, cuja primeira edição é de 2021, sendo a edição de bolso, a que possuo, de 2024.
Alguns problemas não serão de resolução fácil, sobressaindo o que talvez seja o mais grave: a sua população atinge um número pouco superior a 142 milhões, apesar das muitas medidas para combater a fraca natalidade, tratando-se de um problema cuja resolução vai ser demorada e impeditivo da resolução rápida de outros. É na minha opinião, repito, o problema mais grave que a Rússia tem pela frente e que não vai resolver em curto espaço de tempo, o que tem levado as autoridades governamentais a procurar aumentar a imigração, a qual não deixa de ser severamente controlada por questões de segurança.
Pergunto: analisando o salto qualitativo da Rússia nestes últimos 25 anos, não podemos inferir que a maioria do povo russo tem razões para apoiar Vladimir Putin?
É Vladimir Putin um tirano?
Já referi que o poder está concentrado no Kremlin, em Vladimir Putin e no seu círculo de homens de confiança, muitos deles vindos do antigo KGB e já do seu substituto, o FSB – Serviço Federal de Segurança, os Oprichniki (Guardas), ou seja, Putin será o primeiro responsável de uma equipa que governa a Rússia, equipa essa da sua inteira confiança.
Emmanuel Todd, num subcapítulo a que dá o título de Putin não é Estaline, refere Vladimir Shlapentokh (1926-2015), judeu nascido em Kiev, ou seja, na União Soviética, o qual, por causa do anti-semitismo, emigrou para os EUA em 1979, onde, na sua qualidade de um dos fundadores da sociologia empírica russa no tempo de Leonid Brejnev, continuou a trabalhar na sua área sobre a Rússia e sobre questões gerais de sociologia, publicando Freedom, Repression and Private Property in Russia, dizendo E. Todd que “foi publicado em 2013 pela Cambridge University Press, uma editora que dificilmente poderia ser descrita como marginal ou fora do sistema. Este livro oferece a visão matizada e maravilhosamente competente (e hostil a Putin) de um homem que vivenciou a Rússia de Brejnev por dentro e estudou a Rússia de Putin enquanto se tornava cidadão americano. Ao lê-lo, torna-se fácil definir o regime de Putin, não como o exercício do poder de um monstro extraterrestre que subjuga um povo passivo e sobrevivente, mas como um fenómeno compreensível, que faz parte da continuidade de uma história geral da Rússia, ao mesmo tempo que apresenta características específicas.” (6)
Seguindo E. Todd, há que pensar que uma empresa gigante a nível mundial como a Gazprom só pode ser controlada pelo poder estatal, onde um serviço como o FSB, ex-KGB, continua a desempenhar um papel fundamental, para além de a Rússia não se ter transformado numa democracia liberal — felizmente para os russos, acrescento eu —, dizendo ainda E. Todd: “Pela minha parte, tenderia a defini-la como uma democracia autoritária, atribuindo a cada um destes dois termos — democracia, autoritária — pesos equivalentes. Democracia porque, mesmo que as eleições sejam um pouco defraudadas, as sondagens — e isso não é contestado por ninguém — mostram-nos que o apoio ao regime é inabalável tanto em tempos de guerra como em tempos de paz. Autoritário porque, claramente, o regime não cumpre o critério, essencial para uma democracia liberal, de respeito pelos direitos das minorias. A dimensão unanimista do regime é evidente com tudo o que isso implica em restrições às liberdades de imprensa e a vários grupos da sociedade civil.
Mas o regime de Putin é sobretudo notável por algumas características que, por si só, marcam uma ruptura radical com o autoritarismo de estilo soviético.” (7)
Seguindo o mesmo autor, pode dizer-se que ele privilegia a alta elite de Moscovo e de São Petersburgo, mas não deixa de, com igual cuidado, estar atento às reivindicações operárias e procura sempre ter o apoio dos populares, o que, convenhamos, não são características dos tiranos a que estamos habituados.
A propósito das reivindicações operárias, lembro uma história interessante que Anna Arutunyan conta no seu livro «A Mística de Putin», que designa como «O efeito Pikalevo».
Os operários e as operárias da Fábrica de Óxido de Alumínio de Pikalevo estavam sem receber os seus salários há seis meses. Usando o canal governamental criado para os cidadãos apresentarem as suas reivindicações, fizeram chegar o seu protesto ao governo, sendo então Primeiro-Ministro Vladimir Putin e Dmitri Medvedev Presidente, conseguindo que Putin, numa viagem para São Petersburgo, fizesse um desvio e acabasse por reunir com os trabalhadores da fábrica, reunião essa que aconteceu à chuva.
Putin terá mostrado “uma ira soberana tão genuína, tão aparentemente humilhante para o oligarca que baixava a cabeça e tapava os olhos”, escreve Anna Arutunyan, sendo esse oligarca Oleg Deripaska, o proprietário da fábrica, que é o maior produtor mundial de alumínio. A fábrica tinha deixado de pagar salários e deixado de trabalhar por estar a dar um grande prejuízo.
Durante a reunião com Putin, os trabalhadores começaram a receber mensagens nos seus telemóveis do banco a informarem-nos de que os seus salários em atraso tinham sido depositados nas suas contas.
“Foi o melhor desempenho de Putin como czar zangado, (…)
A emissão dessa noite foi o «pão e o circo». Ao visitar a fábrica, Putin perguntou aos administradores por que razão a tinham «transformado numa lixeira daquelas».”
Na reunião, apareceu de calças de ganga e com um casaco bege que não se preocupou em despir.”
Houve um momento humilhante para o oligarca proprietário da fábrica quando Putin o obrigou a assinar um contrato que impunha ao proprietário voltar a colocar as fábricas (além daquela, havia mais duas que dantes faziam parte do grupo e que, com a privatização, se haviam autonomizado) em laboração.
Segundo a autora deste relato, o contrato relativo a matérias-primas era falso, dado que, para ser válido, teria de ser assinado pelos directores-gerais das fábricas.
O oligarca “beneficiava de um resgate de 4,5 milhões de dólares, pago pelo Governo (…)”.
“Mas o facto de Putin ter reparado na aflição do seu povo e castigado um oligarca por negligenciar os seus ancestrais deveres de magnata suscitou uma imensa gratidão.”
O que é certo é que 69% dos inquiridos numa sondagem diziam que Putin tinha tomado a posição correcta e todos reconheciam que, sem a intervenção de Putin, o problema não se teria resolvido. As fábricas estavam em funcionamento e os salários estavam garantidos, a nacionalização que os habitantes de Pikalevo achavam ser a decisão correcta e que a lei determinava nestes casos não aconteceu.
Eis como Anna Arutunyan termina o relato do acontecimento:
“Essas experiências contraditórias com os gestores reflectiam o modo como os locais sentiam o poder a todos os níveis — como uma força que tinha um direito tácito, atribuído por Deus, de os explorar, em troca da ordem que trazia às suas vidas. Isso significava que a interferência de Putin, independentemente de o que ele disse ser verdade ou não, foi, em si mesma, um acto de ordem.
Como nos disse Sofyin: «Penso que a visita de Putin foi recebida como uma manifestação de razão.» (8)
É assim que funciona a Rússia chamada de Putin. Um ditador? Inclino-me para a opinião de Emmanuel Todd, definindo a Rússia de Putin como uma democracia autoritária.
Gostaria eu de viver num regime semelhante? Digo que não, nascido e criado nesta civilização ocidental, a tal que se julga superior a todas as outras, tendo vivido quase 30 anos numa ditadura fascista, o nacional-salazarismo (expressão feliz do historiador e meu amigo Fernando Pereira Marques), estou já viciado na liberdade de que gozo e de que posso desfrutar tendo em conta a minha independência económica — não sou rico, vivo apenas da minha aposentação após 53 anos de trabalho, mas não vivo mal, tendo a pretensão de viajar ainda um pouco pelo Mundo —, mas deixo aqui duas interrogações: qual a preferência dos 20% de portugueses que não têm rendimentos para ter na mesa as três habituais refeições diárias: a liberdade de que diz gozarmos no Ocidente ou a estabilidade de que gozam os russos? Liberdade sem pão interessa a quem?
Sobre a liberdade, já tecerei mais algumas considerações.
Normalmente, a começar pelos meus amigos com que discuto estas questões, contrapõem-me a sua preferência pela vida em liberdade de que gozam na nossa tão enaltecida civilização e alguns, estupidamente, chegam mesmo a dizer-me para ir viver para a Rússia, demonstrando a sua incapacidade para fundamentar as suas opiniões em factos, uns por os desconhecerem e não se preocuparem em procurá-los, outros por ignorância estrutural.
Olhe-se então para a tão enaltecida democracia em que vivemos.
Curiosamente, agora apenas se fala em democracia liberal, um classificativo que nos devia, só por si, fazer pensar: afinal, que raio de democracia é esta?
Lembro Stéphane Hessel, o resistente francês, colaborador de René Cassin na elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, que no seu pequeno livro Indignai-vos recorda ter tido “conhecimento de que o CNR elaborara um programa, o adoptara a 15 de Março de 1944 e propusera para a França libertada um conjunto de princípios e valores sobre os quais assentaria a democracia moderna do nosso país.
Hoje mais do que nunca, precisamos desses princípios e desses valores. Cabe-nos a todos em conjunto zelar para que a nossa sociedade se mantenha uma sociedade da qual nos orgulhemos: não essa sociedade dos imigrantes ilegais, das expulsões, da desconfiança em relação aos imigrantes, não essa sociedade na qual se põem em causa as reformas, os direitos adquiridos da Segurança Social, não essa sociedade na qual os media estão nas mãos dos poderosos, coisas que teríamos recusado aprovar se fôssemos herdeiros genuínos do Conselho Nacional da Resistência.” (9)
Estas palavras de S. Hessel dão-nos uma clara ideia da chamada democracia em que vivemos.
Mas atrevo-me a especular um pouco mais, lembrando o lema da Revolução Francesa — Liberté, Égalité, Fraternité — que todos os movimentos democráticos e de justiça social sempre invocam, para além de ser um lema que é tido como sempre presente na elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adoptada e proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 10 de Dezembro de 1948 (resolução 217 A III), que embora não seja uma declaração com obrigatoriedade legal, foi a base para a elaboração dos dois tratados sobre direitos humanos da ONU, estes com força legal: o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais. Nas constituições de países democráticos ou assim apelidados, também está sempre presente a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Estes documentos são de consulta fácil na Internet, pelo que me dispenso de aqui os analisar, ficando-me apenas pelo lema da Revolução Francesa.
Olhemos para a Igualdade — onde é que ela está? Nem sequer a igualdade de oportunidades está presente na nossa sociedade;
Fraternidade —com cada qual a puxar para seu lado, numa constante acção egoísta, com os velhos a serem deixados à sua sorte e sem poderem usufruir dos seus direitos a não ser que tenham dinheiro, nomeadamente a nível da saúde, à espera de uma intervenção cirúrgica que, quando vem, já vem tarde ou o velho já faleceu, com a juventude, a começar na escola, em competição constante e sem regras, muitas vezes acompanhada de violência psicológica e física… e não me alongo mais;
Liberdade — sem independência económica não há liberdade e milhões de pessoas não têm essa independência, mesmo os que têm emprego assegurado que lhes dá alguma autonomia económica, vivem sempre na dependência do chefe ou do patrão para uma desejada e, na maioria dos casos, merecida promoção e que, portanto, não podem deixar de ter um comportamento que não desagrade à pessoa de quem dependem.
E que liberdade tem quem não tem emprego ou que o tem, mas o rendimento obriga-o a ter de optar entre pagar a renda ou comer?
E que poder tem o cidadão de escolher quem vai governar o país? Falando de Portugal, a Lei Eleitoral dá ao cidadão eleitor a possibilidade de escolher o partido e, assim, contribuir para que esse partido possa governar e aí termina o seu poder. Quem escolhe os candidatos a deputados, nacionais ou municipais? Quem escolhe os vários dirigentes das instituições que deveriam ter um desempenho independente e apenas ao serviço do país? Os dirigentes são escolhidos em função da sua fidelidade ao chefe, ou seja, ao presidente ou secretário-geral do partido, que, se se revelar com competência, isso aconteceu por mero acaso. Não querendo ser exaustivo, não resisto a pôr uma outra questão: quem é que faz as leis? Os deputados escolhidos pelo «patrão» do partido. E no interesse de quem? Veja-se a dificuldade em condenar um político em Tribunal ou mesmo quem tenha poder económico.
Acaso fomos ouvidos para se saber se estávamos de acordo com a adesão à União Europeia (agora assim designada, dispensando-me de fazer aqui a evolução desta associação)? Na adesão ao euro, acaso fomos ouvidos? Nas grandes questões nacionais acaso somos consultados? Para a decisão do envio de tropas para qualquer intervenção militar, de qualquer ramo das forças armadas, acaso somos ouvidos?
Eu poderia colocar aqui muitas outras questões, mas não vale a pena. No entanto, coloco mais uma questão: afinal que liberdade temos? A liberdade de dizer mal de tudo e de todos desde que não ofendamos a honra seja de quem for, a liberdade de dizer um chorrilho de disparates. É este o conceito de Liberdade?
O credo neoliberal é hoje dominante, ainda não tendo conseguido em todos os países o Estado mínimo, mas para lá se caminha. Dominante é já o mercado, sendo o regulador económico-social, que determina o que deve ou não ser privatizado — com o caso português a ser um exemplo claro, com os sectores essenciais da independência de um Estado a estarem quase todos nas mãos de privados e até de outros Estados —; os mercados financeiros com um poder acima dos próprios Estados; as desigualdades sociais a aumentarem de dia para dia, com os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres e com a sua percentagem a aumentar; a opinião pública absolutamente controlada através dos media e até das redes sociais, na sua maioria, meios estes nas mãos dos detentores do capital.
Os detentores do poder permitem apenas a divulgação do pensamento único ocidental, quase todo ele construído nos EUA, facilitando a divulgação de uma política de direita, já de extrema-direita, como se comprova com a facilidade de difusão de um ideário que podemos classificar como fascista.
Pode chamar-se a isto democracia?
Vejamos agora outros exemplos, baseando-me na obra de José Catarino Soares, Dissipando a Névoa Artificial da Guerra: um roteiro para o fim das guerras na Ucrânia, a paz na Europa e o desarmamento nuclear universal.
Hoje, não há ninguém que duvide que a invasão do Iraque unilateralmente pelos EUA, ao arrepio das Nações Unidas, foi um acto ilegal à luz da lei internacional, foi um acto criminoso, provando-se inclusive que a justificação da existência de armas de destruição maciça por parte do Iraque era falsa. Na altura, Joe Biden era senador, destacando-se nas suas posições belicistas contra a Sérvia e contra o Iraque e, em Agosto de 2003, disse «Votei a favor da invasão do Iraque e voltaria a fazê-lo outra vez». Numa audição no Senado americano, em 5 de Janeiro de 1998, Biden não hesitou em dizer que foi o primeiro a propor o bombardeamento de Belgrado pela OTAN/NATO, outra operação em violação da lei internacional e desencadeada à revelia das Nações Unidas, operação esta que transformou a OTAN/NATO numa força de ataque, contrariando os seus próprios estatutos, nos quais é definida como uma organização de defesa.
Continuando ainda com Biden, não posso deixar de lembrar um outro facto, quando se gabou de ter pressionado as autoridades ucranianas e ter, assim, feito substituir o procurador-geral da República da Ucrânia, Viktor Shokin, o qual tinha tido a ousadia de investigar os negócios escuros do seu filho, Hunter Biden, que era um dos Directores da empresa ucraniana Burisma Holdings, por outro procurador que estava aberto a servir os seus interesses e fê-lo em apenas 6 horas.
Afinal, não é a Ucrânia um país soberano, com direito a ter as suas opções? Tendo mesmo afirmado que “ou demitem Shokin ou ficam sem o empréstimo de 1.000 milhões de dólares que o governo dos EUA vos prometeu”. Quem duvidar, pode consultar https://www.youtube.com/watch?v=ko3uZkTgEvo, “Joe Biden Discussing Ultimatum made to Ukraine Burisma” —Council on Foreign Relations. Jan 23, 2018.
Não foi Putin que teve estes comportamentos, foi o «exemplo de democrata chamado Joe Biden». Que raio de democrata é este?
Também foi Joe Biden que elogiou Madeleine Albright, membro do governo de Bill Clinton, aquando da sua morte, dizendo dela, nomeadamente, que «Madeleine foi sempre uma força de bondade, graciosidade e decência —e de liberdade».
Também essa outra mulher da guerra, chamada Hillary Clinton, que sucedeu no cargo a Madeleine Albright, no governo de Barack Obama, disse de Madeleine: «São muitas as pessoas em todo o mundo que estão vivas e a viver melhores vidas graças ao seu serviço.».
Ora, Madeleine Albright, foi das pessoas que mais defendeu o bombardeamento ilegal da Sérvia, assim como «Foi ela também que declarou que “valeu a pena” que tivessem morrido 500 mil crianças iraquianas por fome, desnutrição e doença em consequência das sanções económicas que o seu governo impôs ao Iraque» (in: https://www.youtube.com/watch?v=RM0uvgHKZe8).
Transcrevo ainda da obra de José Catarino Soares: “Em 1998, num debate na Ohio State University, Albright foi interpelada criticamente por várias pessoas do auditório. Uma delas perguntou-lhe como é que ela e outros membros do seu governo conseguiam dormir à noite, acrescentando: «Se quer lidar com Sadam, lide com Sadam, não com o povo do Iraque». Albright retorquiu-lhe sem vacilar:
«Estou muito orgulhosa do que estamos a fazer. Somos a maior nação do mundo, e o que estamos a fazer é ser a nação indispensável, disposta a tornar o mundo seguro para os nossos filhos e netos, e para as nações que obedecem às regras».” (10)
Poderia ainda falar das sanções económicas ao Iraque, da invasão do Afeganistão, da invasão e bombardeamento da Líbia, do bombardeamento da Síria, da responsabilidade de vários presidentes dos EUA, mas deixo outra questão: se o responsável por todas estas declarações e acções fosse Vladimir Putin, o que se diria no Ocidente? E quantos programas por muitos e muitos dias seriam difundidos pelos vários órgãos de comunicação?
Ainda Joe Biden e também Donald Trump, desta vez em relação ao gasoduto NordStream2.
Apesar da controvérsia havida na Europa por causa da dependência com que ficariam os europeus do gás da Rússia, a Alemanha e a Rússia deram início à construção do gasoduto, com início em Maio de 2011 e conclusão em Setembro de 2021, com previsão de entrada em funcionamento em meados de 2022. Este gasoduto tem a vantagem de ir directamente da Rússia para a Alemanha, evitando pagamento de direitos de passagem por outros países. No seu financiamento estiveram envolvidas várias empresas europeias, uma anglo-holandesa, uma francesa e duas alemãs.
Donald Trump, em 2018, ameaçou com sanções pessoas e entidades que estivessem envolvidas no projecto, o que levou a Wintershall e mais 18 empresas europeias a desistir do patrocínio a que se haviam comprometido.
Joe Biden, publicamente e em frente do Chanceler alemão Olaf Scholz, disse que o gasoduto não entraria em funcionamento, numa clara intromissão na autonomia do Estado alemão, sem que O. Scholz reagisse, apesar de, em qualquer contexto, tal afirmação de Biden seria considerada uma declaração de guerra. Como é sabido, o gasoduto foi sabotado. (11)
É esta a democracia que a Civilização Ocidental, que se considera superior a qualquer outra, quer impor ao Mundo? Não estará na base desta crença na superioridade da Civilização Ocidental o domínio colonial que exerceu sobre grande parte do mundo?
Não estou a defender as acções atribuídas a Putin, mas apenas a lembrar que é usual, na propaganda do Ocidente, haver dois pesos e duas medidas.
E que dizem os órgãos de comunicação ocidental sobre o genocídio do povo palestiniano a acontecer agora na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, com a conivência clara do mundo ocidental, genocídio que não seria possível sem a colaboração de Joe Biden e, agora, também de Donald Trump, o que faz deles criminosos de guerra?
Quem não é claramente a favor de Israel é a favor do Hamas e, por isso, é acusado de terrorismo. Que o diga o jornalista Richard Medhurst, preso no ano passado e acusado de terrorismo na Grã-Bretanha por ter criticado o genocídio que está a ser levado a cabo por Israel na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Se não apoia Israel, então é apoiante do Hamas, então é também terrorista e vai para a prisão na Grã-Bretanha. Se não és por mim, és contra mim, é a conclusão. Que maniqueísmo é este?
Olhe-se para a Alemanha, onde se tem de declarar apoio a Israel para poder fixar residência naquele país, onde um simples debate a favor dos Palestinianos é proibido.
É esta a democracia que a tal civilização ocidental, a que se considera superior a qualquer outra, quer impor ao Mundo? São estes os valores dessa democracia?
Por mais que se investigue, não se consegue encontrar qualquer demonstração de que a Rússia queira controlar a Europa Ocidental, nem sequer durante a guerra fria.
A guerra na Ucrânia foi impulsionada pela narrativa ocidental, com destaque para o governo de Joe Biden, foi impulsionada pelo declarado desejo de expandir a OTAN/NATO para Oriente, até cercar a Rússia, posição esta que a Rússia sempre declarou que seria inaceitável, para além de afirmar que a adesão da Ucrânia à organização de defesa ocidental, que se transformou, em organização de ataque a partir dos bombardeamentos à Sérvia, nunca seria aceite pela Rússia. Esta propaganda falsa foi a continuação da sempre propalada ameaça russa e que se iniciou logo após a Revolução de 1917.
São estes os valores da civilização ocidental, baseados em mentiras, que se querem fazer aceitar pelo Mundo?
Vivemos numa sociedade de aparências, a escolha entre o aparente e o ser já não se coloca, o aparente é que dá dinheiro.
(continua)
NOTAS
-
in: Lopes, Domingos, Ucrânia e Rússia – Violência sem Tréguas Razões do Conflito, Edições Colibri, Lisboa, Outubro de 2024, pg. 26;
-
in: Stuermer, Michael, idem, idem, pg. 214;
-
in: Stuermer, Michael, idem, idem, pg. 183. Para uma visão mais completa, ler todo o capítulo 8, GAZPROM: OS NOVOS INSTRUMENTOS DO PODER;
-
in: Teurtrie, David, o. c., pg. 185. Há quem se manifeste contra se considerar o nuclear uma área estratégica por a energia nuclear estar em franco declínio, com a construção nos EUA a declinar e a Alemanha a fechar centrais. Deixo a discussão aos entendidos na matéria, que não sou.
-
in: Teurtrie, David, o. c., pg. 188;
-
in: Todd, Emmanuel, o. c., pgs. 46-47;
-
in: Todd, Emmanuel, o. c., pg. 47;
-
in: Arutunyan. Anna, A Mística de PUTIN, Quetzal Editores, Lisboa, 2014, pgs. 83-102;
-
in: Hessel, Stéphane, INDIGNAI-VOS, Editora Objectiva, Março de 2011, pgs. 17-18;
-
in: Soares, José Catarino, Dissipando a Névoa Artificial da Guerra: um roteiro para o fim das guerras na Ucrânia, a paz na Europa e o desarmamento nuclear universal, Editora Primeiro Capítulo, Julho de 2023, pgs. 99-104;
-
in: https://aviagemdosargonautas.net/2022/08/16/impressoes-da-alemanha-por-antonio-gomes-marques/



A Europa e os brancos do ocidente no hemisfério norte estão determinados a produzir um novo grande conflito mundial. Ora bolas, afinal o que seriam mais alguns milhões de mortes????